sábado, 5 de junho de 2010

História, triste, de José e Manuel, alunos portugueses!

O menino José é estudioso, e por isso terminou com sucesso o 8º ano de escolaridade. Para tanto dedicou ao longo do ano algumas horas a estudar para os testes e até abdicou de uma manhã ou duas de praia em Junho. Ao seu lado na sala de aula senta-se o menino Manuel. Este aluno falta sempre que pode, raramente estuda, e aqui e acolá revela-se insolente para os professores, por isso reprovou. Ambos têm 14 anos completos.
No ano seguinte José continua a dedicar-se aos estudos, e completará o 9º ano. Ao invés, Manuel revela-se cada vez mais indiferente a tudo o que se relaciona com a escola. Passa o tempo em cafés, dorme até altas horas e ninguém se espanta com mais uma retenção, (palavra moderna do léxico gramatical escolar português para designar chumbo por total ausência de vontade ou inteligência, únicas realidades em que a tal retenção é justificável). Ambos os alunos têm 15 completos no final deste ano.
Quando José chega à escola no mês de Setembro para iniciar o seu 10º, surpreende-se ao ver ali o Manuel, que deveria estar ainda na escola do ensino básico a frequentar o 8º ano, mais uma vez.
Antes que José tenha tempo de perguntar ao Manuel o porquê da sua presença ali, este dispara-lhe à queima-roupa:
- Então ó papalvo!? Ainda vais continuar a estudar? Ainda continuas a assistir às aulas todas, a estudar para testes, a executar os exercícios a tempo? És mesmo asno! Olha eu aqui estou, no mesmo ano que tu – no 10º. E daqui para a frente vais ver que a Ministra vai arranjar um estratagema para eu chegar ao 12º ano da mesma maneira que cheguei aqui. Olha, vai matando-te a estudar, que eu vou dar uma volta ali com uma garina, (esta cheira a década de 80), que conheci hoje, depois passas-me os apontamentos, para eu enganar a velha.
Conclusão: Até agora temos vindo a assistir a um contínuo facilitismo, totalmente injustificável, no sistema de ensino nacional. A partir de muito em breve entraremos numa outra fase – a total falta de vergonha, o crime horrendo de assassinar uma geração nas suas mais legitimas aspirações. Se os nossos alunos não estivessem manietados nas diferentes Associações de estudantes pelas interferências partidárias, as nossas escolas já estariam obviamente vazias. E isso sucederia porque os alunos jamais aceitariam que os desrespeitassem, que os vilipendiassem a este ponto, ao extremo de desrespeitar o seu trabalho. Por muitíssimo menos que isto esvaziamos algumas escolas em 89 e 90, porque queriam que uma prova de acesso à Universidade, que ninguém sabia o que era, contasse para o nosso futuro. Ganhámos. Nenhum aluno de hoje sabe o que é a PGA. E agora? Que se passa para que a sociedade assista impávida e serena ao desmoronar de um país inteiro, e ninguém faça nada? Que aconteceu para que não haja a coragem de dizer Basta!!! Assistimos impávidos a reuniões de antigos ministros para debater a situação financeira portuguesa, como se não fossem eles os culpados dela; assistimos aos mais obscenos crimes de espoliação do erário público por parte de gestores que se dizem bons, mas só tem curriculum em empresas que funcionam em sistema monopólio; assistimos ao assassinar do futuro através da imbecilização da juventude, e isto pela mão de uma senhora que diz ter uma carreira como professora, é autora, e desgraçadamente para alguns de nós, licenciada em História.
Não vale a pena culpar ninguém, nem substituir nenhum político, somos NÓS que estamos mal. Aos nossos filhos, e aos nossos alunos, (os que são professores), temos o dever moral de dizer que chegou a hora de esvaziar as escolas e sair para a rua, em massa.
“Uma nação de analfabetos, (ou semi-analfabetos), é uma nação pobre; e não é por ser pobre que é de analfabetos, antes por ser de analfabetos que é pobre!” – António José Saraiva (1961).