domingo, 21 de março de 2010

O CERNE DA QUESTÃO



Ninguém ignora que vivemos hoje tempos profundamente conturbados. Se fosse possível elaborar uma estatística sobre qual a palavra mais proferida publicamente nos últimos meses creio que a palavra crise seria aquela que surgiria em primeiro lugar. Afinal basta ligar a rádio ou a televisão, ler um jornal ou visitar um site de informação genérica para lá encontrarmos inúmeros exemplos do estado de crise em que vivemos. São muitas as vezes em que para além dos sinais da dita, encontramos ainda os manifestos dos salvadores da pátria empenhados em apresentar as soluções mais ou menos óbvias, para nos retirar em definitivo e ad eternum das maleitas da sociedade.
Também ninguém ignora que temos sido governados por incapazes, quando não corruptos, nem tão pouco que esse facto nos arrastou para um pântano económico-financeiro do qual teremos que sair com o sacrifício de muitos. É ainda demasiado evidente que a corrupção quer no domínio do estado quer no domínio privado, gerou nos últimos anos teias de cumplicidade e foi o factor mais relevante para que nem sempre se escolhessem os melhores para os diferentes cargos de maior responsabilidade. Parece-me óbvio que o país se encontra submerso numa série de problemas graves, que não poderão ser resolvidos por decreto, nem será obra realizável numa geração. Afinal o que escrevi até agora nem é novo, nem tão pouco invulgar.
Importa então reflectir. Onde está o problema? Normalmente lemos e ouvimos acusações que apontam na sua grande maioria, para a classe política. Quem não se lembra das críticas ao Guterres pelo despesismo, e pelo facto de a dívida externa estar, na época a 65% do PIB? E que dizer das acusações a Durão Barroso por ter abandonado o país, quase o deixar órfão, apesar de aqui viverem mais de dez milhões de seres humanos, e logo a seguir acusarmos Santana de não ter legitimidade e colocar o défice em quase 6%. Na época disseram-nos os tais salvadores, que era preciso um governo forte. Elegemos um rapazinho de cabelo grisalho com nome de filósofo, mas cedo se percebeu que este também não conseguia atinar, afinal o défice já vai nos 9,3%, (em Janeiro era de 8,3%, depois desapareceram misteriosamente 5 mil milhões), enquanto o país descobria, sem prestar a devida atenção, que a riqueza gerada anualmente já não chega para pagar as dívidas.
Perante o quadro traçado no parágrafo anterior parece-me claro que os culpados estão encontrados – são os políticos. Isto mesmo, muito à portuguesa, pôr tudo no mesmo saco, generalizar para não ter o trabalho de especificar e justificar. Mas quem são estes senhores? Perdão, haja respeito pelo regimento, quem são os senhores presidentes, e as senhoras e senhores políticos? Eu ia jurar que são pessoas, portugueses, que vivem nos mesmíssimos locais que todos nós vivemos, estudaram nas nossas escolas e universidades, provavelmente trabalharam em empresas antes de assumirem cargos políticos tal qual todos nós. Aliás temos exemplares desta espécie para todos os gostos, a saber: Já tivemos um ministro que reconheceu ser ex-tóxico-dependente; ex-professores universitários; ex-quadros superiores de empresas públicas; ex-quadros de empresas privadas; ex-advogados; ex-escritores; ex-críticos de arte; poetas e tradutores de obras internacionais, etc. etc. Eu creio que, com a excepção das empregadas domésticas, não existe nenhuma profissão que ainda não tenha sido representada nos executivos lusos. Assim sendo arriscar-me-ia a dizer, que são pessoas como nós. Pelo menos como a esmagadora maioria de nós.
E como somos nós? Será que o nosso comportamento, as nossas atitudes, mormente as quotidianas, têm algum reflexo posterior no estado geral das coisas? Será que já parámos para reflectir, concluir e executar uma qualquer estratégia para corrigir algo que deparámos não estar bem?
O problema, creio bem, está em nós. Os portugueses vivem uma espécie de ilusão colectiva, que tem vindo a ganhar proporções inaceitáveis. A nossa divisa é Se o vizinho tem e faz, logo também tenho que ter e fazer. Poucos reflectem com seriedade sobre qual o caminho que deveriam seguir.
Demitimo-nos de tudo, ou pelo menos daquilo que deveria constituir as nossas principais preocupações. Largamos os miúdos na escola, que é o sítio onde eles devem estar, e quem lá está é pago para os educar, por isso demitimo-nos de ser pais responsáveis e intervenientes na vida dos nossos filhos; chegamos a casa sempre cansados, de um cansaço estranho porque fomos e viemos em confortáveis carros, trabalhámos apenas 8 ou 9 horas por dia, mas estamos exaustos ao ponto de ligar a televisão e nos deixarmos programar pelo que vemos, maneira poética de dizer que nos deixamos convencer por aquilo que lá se diz sem esforço de raciocínio crítico. Os miúdos que vão brincar para o quarto! Então não lhes comprámos uma televisão, um computador, uma playstation, uma Nintendo, um castelo com cavaleiros e vilões, carros, carrinhos e carrões, Barbie’s, Littlest Pet Shop ou Little People? Queriam um animal? Pois queriam, e depois? E os pêlos? Os passeios nocturnos? A ida ao veterinário nos poucos momentos livres que nos restam? Ainda bem que temos aqueles brinquedinhos chineses que nos permitem dar comida, limpar o rabo e levar a passear o animal de estimação sem sair de casa, e sobretudo sem chatear os pais. Que fazem estes entretanto? Vêem o mítico jogo de futebol claro, e a desconchavada novela, de que já sabemos o argumento por ser sempre igual – o pobre que quer casar com a menina rica, que por acaso encontrou num parque de estacionamento de um qualquer centro comercial quando esta se deparou com um pneu furado, e aí está o nosso cavalheiro a mudar-lhe o pneu, enquanto não despega os olhos da cara da nossa heroína. Nem reparamos que seria impossível atinar com o lugar correcto de colocar o macaco ou as porcas das rodas, estando o jovem tão absorvido a olhar para a sua ultra-recente paixão. Depois vem o telejornal, e nem nos apercebemos que as notícias do campeonato de futebol foram transmitidas primeiro do que a notícia que dá conta dos milhões de pessoas que morrem de fome por dia, apesar de viverem em países cheios de potencialidades fruto das suas riquezas naturais. Não reparamos que a nossa cantora favorita canta mesmo mal, que aquilo é só electrónica. Como reparar nisso se a senhora se apresenta com uma mini-saia tão provocante, com a cara com mais de 1cm de espessura de cremes para esticar, melhorar, tapar, esconder e enganar tudo aquilo que se convencionou chamar defeitos de pele?
Perto de nós construíram enormes prédios na orla costeira, cujos habitantes tratam a praia de forma peculiar, classificando-a com o determinante possessivo – minha! Os sobreiros que estavam no caminho para as nossas férias algarvias, para aquela vila à beira-mar onde passamos 15 dias a crédito, num amontoado de gente e poeira, desapareceram, para dar lugar a um luxuoso aldeamento bem junto à barragem nova, que deveria servir para favorecer a agricultura e abastecer de água as cidades, e não vai cumprir a sua função porque alguém tratará de poluir a água com motos-de-água e barcos a entornar combustível e óleo na albufeira. E olhamos o aldeamento, fazemos uma pausa na viagem para o visitar com mais atenção, e qual é a nossa conclusão? O país está a modernizar-se e quem me dera ter dinheiro para também eu derrubar sobreiros e ter a minha casa com terraço virado para a albufeira que também seria determinantemente considerada minha.
Afinal, não vale a pena acusarmos ninguém. Devemos reflectir, e mudar alguma coisa no cerne da questão, e este encontra-se na cidadania que nos foi oferecida e que demonstramos diariamente não merecer. Ser cidadão é muito mais do que colocar um voto numa urna de 4 em 4 anos, é intervir e exigir, é sobretudo ter comportamentos de cidadania, todos os dias. É exigir, não porque temos dinheiro, mas porque temos comportamentos socialmente aceitáveis, ou seja, é denunciar a corrupção porque estamos convencidos dos seus malefícios, e não por não termos tido a possibilidade de partilhar dos seus despojos.

terça-feira, 16 de março de 2010

AMADURECIMENTO, LIBERDADE E PRECONCEITO

Magnífico discurso

http://www.ted.com/talks/lang/por_pt/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html

quinta-feira, 4 de março de 2010

TSF

Afinal a comunicação social portuguesa ainda não está nem moribunda nem tão pouco manietada. Hoje às 19:30 na TSF passou um documentário excelente sobre o País Basco. Emissários da rádio portuguesa naquela Comunidade como lhe chamam os de Madrid, fizeram-se à estrada e buscaram em Hernani, em San Sebastian, na rua e na Universidade, nos jovens e nos menos jovens, as respostas para o futuro.
Da emissão ficou duas ideias básicas. Todos os transeuntes que foram entrevistados en la calle foram unânimes em considerar a necessidade histórica de se realizar um referendo, ou seja, deixar o povo basco dizer o que realmente quer. Alguns condenaram a violência da ETA e chegaram mesmo a considerar ser ela a responsável por não se ter conseguido ainda uma solução.
Reproduzo aqui a frase do programa que traduzo já para português – “Deixem fazer o referendo, mesmo que não vinculativo. Porque tem medo Madrid do referendo e da democracia? Não devemos temer a democracia, não faz sentido, a democracia trabalha-se”Se puderem visitem o site da TSF, pode ser que consigam ouvir o documentário.
Parabéns TSF, mais uma vez!

terça-feira, 2 de março de 2010

Revisitar António José Saraiva

Numa altura em que todos os agentes educativos fazem, ou deviam fazer, uma reflexão profunda sobre quais os objectivos a atingir com a escola que temos, e quais as alterações de fundo que o sistema exige, convém não esquecer que o melhor método é começar pelo princípio, e definir desde logo a relação escola-sociedade. Para tanto proponho relembrar o que escreveu António José Saravia em 1960:
“Uma nação de analfabetos, (ou semi-analfabetos), é uma nação pobre; e não é por ser pobre que é de analfabetos, antes por ser de analfabetos que é pobre!”
Saraiva, António José, in “Dicionário Crítico” pág.70, Gradiva

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ser professor é ...

A minha irmã Ana fez-me chegar este texto de um professor que não tenho o prazer de conhecer. Eu apenas o comento da seguinte maneira – Um país onde existem profissionais com este sentir podia ser uma coisa muito diferente do que na realidade é! As razões de o não ser ficam para um texto que escreverei, ou vocês claro, em breve.


João Torgal| 2010-03-01

Quando as minhas missões de educador de infância, psicólogo ou funcionário administrativo me permitem, também consigo, em cerca de 10% do meu trabalho, preparar minimamente as aulas e ensinar Matemática do 8.º e do 9.º anos.

Mais especificamente, ser professor de Matemática do ensino básico (8.º e 9.º anos) é essencialmente:

1. Deparar com alunos com imensas dificuldades e com uma enorme falta de bases matemáticas. Só para se ter uma noção, poucos são aqueles que sabem calcular a área de um rectângulo, quanto é "quatro ao cubo", somar duas fracções, dizer inequivocamente quanto é 5 - 12, resolver um problema simples que envolva apenas uma subtracção ou a tabuada (o resultado das pedagogias científicas que dizem que nada pode ser decorado e que tudo tem de ser aprendido de forma lúdica é perguntar quanto é 8 × 4 e dificilmente obter a resposta certa). No entanto, fruto das medidas educativas que evitam os chumbos a todo o custo e de um facilitismo avaliativo de muitos professores que autenticamente oferecem notas para não se chatear, estes alunos vão passando de ano, mesmo que dotados de uma ignorância profunda (só mais tarde, estes alunos irão perceber que são eles as principais vítimas deste sistema educativo facilitista e perverso). Isto está de tal forma que há na minha escola alunos que chegam ao 5.º ano sem praticamente saberem ler nem escrever (!!!).

2. Gerir uma multiplicidade de conflitos no seio da turma, com uma quantidade grande de alunos desmotivados, desinteressados e que não percepcionam na escola uma verdadeira utilidade prática.

3. Sempre que necessário, agir disciplinarmente, sabendo (professores e alunos) que a consequência prática e correctiva destas medidas é praticamente nula. Isto porque por mais faltas disciplinares que um aluno tenha, pouco mais pode acontecer do que efectuar trabalho comunitário durante uns dias (se os pais deixarem, senão o menino fica apenas suspenso, ou seja, férias antecipadas) dado que medidas como a expulsão estão completamente fora dos regulamentos (talvez aí os alunos pensassem duas vezes antes de pisarem o risco, mas não pode ser porque, como diria Eduardo Sá de forma mais eloquente, seria uma experiência verdadeiramente humilhante e traumática, que desrespeitaria o direito fundamental da criança).

Tenho o maior respeito e consideração por alunos com casos familiares conturbados e provenientes de um meio social muito complicado (só uma pessoa fria e cruel não teria). Mas, mesmo alunos nessas condições têm de perceber, a bem ou a mal, que a escola é uma oportunidade que não pode ser desaproveitada, que há regras a cumprir e que há (deveria haver) medidas verdadeiramente severas para quem prevarica. Sob pena de, como acontece, o conceito de "escola inclusiva" ser uma farsa. Que raio de "escola inclusiva" é esta que premeia e dá múltiplas oportunidades aos alunos mais indisciplinados, enquanto aqueles que cumprem, se esforçam e se empenham são dia após dia prejudicados pelo comportamento perturbador e recorrente dos primeiros? É o que dá quando certas leis são elaboradas por gente que não faz a mínima ideia do que é a realidade escolar no seu quotidiano, muito menos do que é o fenómeno da turma e das múltiplas variáveis que lhe estão associadas.

4. Preparar provas de recuperação para um aluno que falte permanentemente, sabendo que, mesmo que ele reprove uma ou duas vezes, a possibilidade de, nestas circunstâncias, chumbar por faltas está sujeita a um longo processo burocrático (que mesmo assim pode não conduzir a nada, pois há sempre pressões fortes para que este não se concretize, nomeadamente algumas usando "falhas" na lei). Ou seja, foi a forma genial encontrada pelo Ministério de ninguém chumbar por faltas, mesmo dando a ideia de que isso supostamente acontece, encarregando os professores de todo o procedimento legal em redor deste embuste.

5. Preparar e pôr em prática criteriosamente planos de acompanhamento e de recuperação, respectivamente para alunos repetentes e/ou em risco de chumbar pelo número elevado de negativas. Há casos onde se percebe essa necessidade, por serem casos com reais dificuldades, que precisam e merecem um acompanhamento mais directo, mas, em muitas situações, este insucesso deve-se muito a falta de estudo, de atenção nas aulas e de esforço (sim, porque aprender exige esforço e sacrifício - essa ideia de que tudo tem de ser aprendido de forma divertida e natural é mais uma das grandes falácias da "escola moderna") e, nesses casos, estes planos de acompanhamento são mais um exemplo que demonstra a importância excessiva que se dá a quem não dá valor à escola e ao conhecimento, enquanto se despreza os bons alunos que, à custa de mérito próprio, vão tendo verdadeiro sucesso educativo (mas que ficam com a sua evolução limitada pelas prioridades da escola actual - Ken Robinson tem toda a razão: a escola anda mesmo a matar a criatividade e o desenvolvimento de muito boa gente).

6. Tentar encontrar mecanismos diferenciados de avaliar e/ou abordar os conteúdos programáticos a alunos com Necessidades Educativas Especiais ou em Currículos Alternativos.

7. Dar aulas de Área Projecto (a importância desta e de outras Actividades Curriculares Não Disciplinares daria uma análise interessante, mas demasiado longa para se enquadrar neste texto).

8. Participar em múltiplas reuniões, muitas vezes inócuas, mas obrigatórias perante a lei, onde se analisam mil e um aspectos de natureza burocrática referidos anteriormente.

É tudo isto (escapei a aulas de substituição, mas, ainda assim, devo-me ter esquecido de outras coisas) e não sou director de turma. Porque se fosse, teria ainda de, para além de ter uma proximidade maior com a turma e contactar e receber os pais (uma missão interessante, pois permite-nos ter um conhecimento maior do percurso individual dos alunos e do seu enquadramento familiar e sociocultural, ajudando a perceber certas coisas e a tentar ser útil na orientação do seu futuro), coordenar administrativamente todo o procedimento atrás descrito, no que se refere à assiduidade, ao comportamento, à disciplina e ao aproveitamento, para além de orientar outros aspectos diversos (o dossier respectivo, o Projecto Curricular, as reuniões de conselho de turma, etc). Para todo esse trabalho de direcção de turma, o professor tem no seu horário, para desempenhar esta função, a módica quantia de... 90 minutos semanais (!!!).

Ah!!! Já me esquecia. Quando tenho tempo, quando as minhas missões de educador de infância, psicólogo ou funcionário administrativo me permitem, também consigo, em cerca de 10% do meu trabalho, preparar minimamente as aulas e ensinar Matemática do 8.º e do 9.º anos (para além, naturalmente, de me preocupar com os instrumentos de avaliação). Mas tenho que dizer isto baixinho para que os peritos do eduquês não me ouçam. É que palavras como "ensinar", "explicar" ou "expor" são para eles termos quase criminosos. Porque, qualquer dia, na forma como as coisas têm evoluído, escola e conhecimento serão conceitos que só tenuemente se interceptam. Porque a escola deixará definitivamente de ser um local onde se aprende e onde se ensina, para ser apenas um espaço de motivação e de vivência. Com estes pressupostos e com o anunciado e vergonhoso aumento da escolaridade obrigatória até ao 12.º ano, não é preciso ser grande visionário para que se preveja que, cada vez mais, cheguem às universidades verdadeiros analfabetos. Mesmo que não no sentido literal, pelo menos do ponto de vista cultural, formativo, comportamental ou cognitivo.

Assim sendo, atendendo aos factores que referi anteriormente e ao ordenado relativamente reduzido que se recebe (têm razão os críticos quando dizem que os professores têm um ordenado chorudo: 950 euros limpos numa primeira fase é, de facto, uma verdadeira fortuna), parece-me que só pode ser professor do ensino básico quem tem uma vocação absolutamente única para a multiplicidade de tarefas em redor da profissão, capaz de contornar e de superar com facilidade todos estes obstáculos profundos, quem não tem habilitações ou capacidade de desempenhar outra função na sociedade ou quem é estúpido. Como, apesar de ter gosto em ensinar, não tenho essa capacidade de ignorar e me conformar alegremente com toda esta situação e, felizmente, tenho habilitações e capacidade para desempenhar outras tarefas profissionais, não me parece que faça muito sentido continuar a ser professor do ensino básico. A não ser que seja estúpido...

(Nota: Escrevo este texto numa altura em que acabo de corrigir 74 testes, tendo havido 8 positivas. Tenho perfeita noção de que, à luz do sistema e independentemente da falta de bases e métodos de estudo dos alunos e da sua falta de atenção, esforço e empenho, a responsabilidade destes resultados é minha e só minha, por não os ter motivado convenientemente. Mas, claro, é fácil obter a redenção. Basta que assuma o meu pecado e premeie o fraco desempenho com óptimas notas, contribuindo para o "sucesso" educativo português . Nesse instante, tudo me será perdoado e passarei de imediato a ser... um "bom professor".)

ETA (EUSKADI TA ASKATASUNA)


Durante este fim-de-semana foi noticiado mais uma captura de um chefe militar do grupo separatista basco ETA. Trata-se de um homem com nome marcadamente basco – Gogeaskoetra – e de 54 anos de idade. Durante os últimos cinco anos o diligente ministro do Interior espanhol já declarou por 5 vezes ter capturado o chefe da ETA, para além de um número muito significativo de apoiantes, combatentes, operacionais, simpatizantes, etc. Só desde Janeiro último, em dois meses portanto, forma anunciadas 32 capturas de indivíduos suspeitos de pertencerem à ETA.
Eu entendo que estas notícias revelam duas realidades: por um lado temos a demonstração cabal da incapacidade das autoridades espanholas e francesas em conseguirem neutralizar o grupo, por outro é indesmentível que a capacidade deste em se renovar é enorme e revela uma melhor implantação no terreno e menos uma organização aceitável. É óbvio que a polícia há muito infiltrou sectores da organização, mas também que os bascos jamais aceitarão a subjugação a Madrid, e que muitos deles estão dispostos a dar a vida pela causa.
Alguns analistas portugueses e europeus, dão como certa a máxima segunda a qual um grupo terrorista é igual a qualquer outro da mesma índole, logo não existe terrorismos mas terrorismo. Eu penso que este pressuposto está errado, e mais errada está a política de Madrid que nos últimos anos tem procurado, com muito sucesso diga-se, quer junto das instituições europeias, quer junto dos países da NATO, obter apoios no combate à ETA. Só que a ETA, a Al-Qaeda, ou a Frente Polisário não são uma e a mesma realidade; longe disso.
A ETA defende uma realidade histórica. O País Basco possui um contexto sociocultural absolutamente próprio, que só a força das armas tem subjugado. Até há poucos anos a língua Basca, o Euskera, era proibida nas escolas daquela província espanhola. A autonomia basca encontra-se hoje muito longe da existente na Catalunha, e é similar à Galega. Ora os contextos nacionais destes dois territórios são muito mais próximos de Madrid do que o Basco. Claro que a questão se pode colocar de forma a perceber se esta evidência justifica a acção violenta. Normalmente é aqui que as opiniões se dividem.
O modus operandi da ETA ao longo dos tempos foi quase sempre pautado pelo aviso prévio e atempado de que um engenho ia explodir em tal sítio, o que não é bem o caso de outros grupos considerados congéneres. É verdade que no caso dos assassínios de elementos militares isso não se verificou. Todavia isto apenas demonstra que a ETA age de acordo com os códigos militares, ou seja, para os bascos Euskadi encontra-se em guerra entre exércitos que pertencem a dois estados, quem pertence a esses exércitos está portanto em guerra e logo assume as consequências até Eusakdi, (país basco), se encontrar livre da presença estrangeira. Este modo de agir afasta, aliado às razões históricas, sociais e culturais a que aludi no parágrafo anterior, a ideia de que todos aqueles que pegam em armas para defenderem um ideal, são iminentemente iguais.
Por outro lado, o que aconteceria se a ETA depusesse as armas, e a resistência fosse pacífica? (Coisa que aliás fez por três vezes e unilateralmente). Será que Madrid aceitaria a secessão? Claro que não. A Espanha é uma realidade historicamente dividida, não existe uma Espanha, mas antes Espanhas. E este facto funciona simultaneamente como evidência e argumento para a acção da ETA.
Lembro-me que em 1990, quando me dirigia para Montpellier, para passar umas "férias" a vindimar, na estação de caminhos-de-ferro de San Sebastian o nome da cidade estava riscado com tinta spray verde e vermelha, (a parede já era branca), e por baixo em letras da mesma cor via-se Donostia. Na parede que dividia a estação da rua adjacente lia-se em castelhano: “Porque fomos somos, porque somos seremos!”. Temo que uma determinação desta natureza assumida por uma parte muito significativa de um povo torná-lo-á invencível. Se calhar Victor Hugo tinha razão quando em pleno século XIX afirmava no parlamento francês – “Um basco não é francês nem espanhol... é basco!”