Ninguém ignora que vivemos hoje tempos profundamente conturbados. Se fosse possível elaborar uma estatística sobre qual a palavra mais proferida publicamente nos últimos meses creio que a palavra crise seria aquela que surgiria em primeiro lugar. Afinal basta ligar a rádio ou a televisão, ler um jornal ou visitar um site de informação genérica para lá encontrarmos inúmeros exemplos do estado de crise em que vivemos. São muitas as vezes em que para além dos sinais da dita, encontramos ainda os manifestos dos salvadores da pátria empenhados em apresentar as soluções mais ou menos óbvias, para nos retirar em definitivo e ad eternum das maleitas da sociedade.
Também ninguém ignora que temos sido governados por incapazes, quando não corruptos, nem tão pouco que esse facto nos arrastou para um pântano económico-financeiro do qual teremos que sair com o sacrifício de muitos. É ainda demasiado evidente que a corrupção quer no domínio do estado quer no domínio privado, gerou nos últimos anos teias de cumplicidade e foi o factor mais relevante para que nem sempre se escolhessem os melhores para os diferentes cargos de maior responsabilidade. Parece-me óbvio que o país se encontra submerso numa série de problemas graves, que não poderão ser resolvidos por decreto, nem será obra realizável numa geração. Afinal o que escrevi até agora nem é novo, nem tão pouco invulgar.
Importa então reflectir. Onde está o problema? Normalmente lemos e ouvimos acusações que apontam na sua grande maioria, para a classe política. Quem não se lembra das críticas ao Guterres pelo despesismo, e pelo facto de a dívida externa estar, na época a 65% do PIB? E que dizer das acusações a Durão Barroso por ter abandonado o país, quase o deixar órfão, apesar de aqui viverem mais de dez milhões de seres humanos, e logo a seguir acusarmos Santana de não ter legitimidade e colocar o défice em quase 6%. Na época disseram-nos os tais salvadores, que era preciso um governo forte. Elegemos um rapazinho de cabelo grisalho com nome de filósofo, mas cedo se percebeu que este também não conseguia atinar, afinal o défice já vai nos 9,3%, (em Janeiro era de 8,3%, depois desapareceram misteriosamente 5 mil milhões), enquanto o país descobria, sem prestar a devida atenção, que a riqueza gerada anualmente já não chega para pagar as dívidas.
Perante o quadro traçado no parágrafo anterior parece-me claro que os culpados estão encontrados – são os políticos. Isto mesmo, muito à portuguesa, pôr tudo no mesmo saco, generalizar para não ter o trabalho de especificar e justificar. Mas quem são estes senhores? Perdão, haja respeito pelo regimento, quem são os senhores presidentes, e as senhoras e senhores políticos? Eu ia jurar que são pessoas, portugueses, que vivem nos mesmíssimos locais que todos nós vivemos, estudaram nas nossas escolas e universidades, provavelmente trabalharam em empresas antes de assumirem cargos políticos tal qual todos nós. Aliás temos exemplares desta espécie para todos os gostos, a saber: Já tivemos um ministro que reconheceu ser ex-tóxico-dependente; ex-professores universitários; ex-quadros superiores de empresas públicas; ex-quadros de empresas privadas; ex-advogados; ex-escritores; ex-críticos de arte; poetas e tradutores de obras internacionais, etc. etc. Eu creio que, com a excepção das empregadas domésticas, não existe nenhuma profissão que ainda não tenha sido representada nos executivos lusos. Assim sendo arriscar-me-ia a dizer, que são pessoas como nós. Pelo menos como a esmagadora maioria de nós.
E como somos nós? Será que o nosso comportamento, as nossas atitudes, mormente as quotidianas, têm algum reflexo posterior no estado geral das coisas? Será que já parámos para reflectir, concluir e executar uma qualquer estratégia para corrigir algo que deparámos não estar bem?
O problema, creio bem, está em nós. Os portugueses vivem uma espécie de ilusão colectiva, que tem vindo a ganhar proporções inaceitáveis. A nossa divisa é Se o vizinho tem e faz, logo também tenho que ter e fazer. Poucos reflectem com seriedade sobre qual o caminho que deveriam seguir.
Demitimo-nos de tudo, ou pelo menos daquilo que deveria constituir as nossas principais preocupações. Largamos os miúdos na escola, que é o sítio onde eles devem estar, e quem lá está é pago para os educar, por isso demitimo-nos de ser pais responsáveis e intervenientes na vida dos nossos filhos; chegamos a casa sempre cansados, de um cansaço estranho porque fomos e viemos em confortáveis carros, trabalhámos apenas 8 ou 9 horas por dia, mas estamos exaustos ao ponto de ligar a televisão e nos deixarmos programar pelo que vemos, maneira poética de dizer que nos deixamos convencer por aquilo que lá se diz sem esforço de raciocínio crítico. Os miúdos que vão brincar para o quarto! Então não lhes comprámos uma televisão, um computador, uma playstation, uma Nintendo, um castelo com cavaleiros e vilões, carros, carrinhos e carrões, Barbie’s, Littlest Pet Shop ou Little People? Queriam um animal? Pois queriam, e depois? E os pêlos? Os passeios nocturnos? A ida ao veterinário nos poucos momentos livres que nos restam? Ainda bem que temos aqueles brinquedinhos chineses que nos permitem dar comida, limpar o rabo e levar a passear o animal de estimação sem sair de casa, e sobretudo sem chatear os pais. Que fazem estes entretanto? Vêem o mítico jogo de futebol claro, e a desconchavada novela, de que já sabemos o argumento por ser sempre igual – o pobre que quer casar com a menina rica, que por acaso encontrou num parque de estacionamento de um qualquer centro comercial quando esta se deparou com um pneu furado, e aí está o nosso cavalheiro a mudar-lhe o pneu, enquanto não despega os olhos da cara da nossa heroína. Nem reparamos que seria impossível atinar com o lugar correcto de colocar o macaco ou as porcas das rodas, estando o jovem tão absorvido a olhar para a sua ultra-recente paixão. Depois vem o telejornal, e nem nos apercebemos que as notícias do campeonato de futebol foram transmitidas primeiro do que a notícia que dá conta dos milhões de pessoas que morrem de fome por dia, apesar de viverem em países cheios de potencialidades fruto das suas riquezas naturais. Não reparamos que a nossa cantora favorita canta mesmo mal, que aquilo é só electrónica. Como reparar nisso se a senhora se apresenta com uma mini-saia tão provocante, com a cara com mais de 1cm de espessura de cremes para esticar, melhorar, tapar, esconder e enganar tudo aquilo que se convencionou chamar defeitos de pele?
Perto de nós construíram enormes prédios na orla costeira, cujos habitantes tratam a praia de forma peculiar, classificando-a com o determinante possessivo – minha! Os sobreiros que estavam no caminho para as nossas férias algarvias, para aquela vila à beira-mar onde passamos 15 dias a crédito, num amontoado de gente e poeira, desapareceram, para dar lugar a um luxuoso aldeamento bem junto à barragem nova, que deveria servir para favorecer a agricultura e abastecer de água as cidades, e não vai cumprir a sua função porque alguém tratará de poluir a água com motos-de-água e barcos a entornar combustível e óleo na albufeira. E olhamos o aldeamento, fazemos uma pausa na viagem para o visitar com mais atenção, e qual é a nossa conclusão? O país está a modernizar-se e quem me dera ter dinheiro para também eu derrubar sobreiros e ter a minha casa com terraço virado para a albufeira que também seria determinantemente considerada minha.
Afinal, não vale a pena acusarmos ninguém. Devemos reflectir, e mudar alguma coisa no cerne da questão, e este encontra-se na cidadania que nos foi oferecida e que demonstramos diariamente não merecer. Ser cidadão é muito mais do que colocar um voto numa urna de 4 em 4 anos, é intervir e exigir, é sobretudo ter comportamentos de cidadania, todos os dias. É exigir, não porque temos dinheiro, mas porque temos comportamentos socialmente aceitáveis, ou seja, é denunciar a corrupção porque estamos convencidos dos seus malefícios, e não por não termos tido a possibilidade de partilhar dos seus despojos.
Eu não me demito de ser uma mãe responsável e intervir na vida das minhas filhas.Arranjo sempre um tempinho que não tenho para as deixar felizes a fazer "actividades", enquanto o pó e a roupa por passar se acumulam, muitas vezes juntamente com o meu cansaço e desânimo.
ResponderEliminarNão me demito de "salvar o Planeta" e insisto em separar o lixo mesmo quando me dizes que no ecoponto vão misturar tudo.
Não me demito de ir às urnas num domingo de Sol mesmo que não acredite nas soluções que o boletim de voto me apresenta.
Não me demito de ler os teus artigos mesmo sabendo que o que estou a escrever pouco tem a ver com política, economia e o estado do país, assuntos que eu, mesmo como tua seguidora, não domino.
Achei só que já merecias um comentário, ao fim de 7 artigos. Aqui fica então: "Não me demito de ti".
T.