
Durante este fim-de-semana foi noticiado mais uma captura de um chefe militar do grupo separatista basco ETA. Trata-se de um homem com nome marcadamente basco – Gogeaskoetra – e de 54 anos de idade. Durante os últimos cinco anos o diligente ministro do Interior espanhol já declarou por 5 vezes ter capturado o chefe da ETA, para além de um número muito significativo de apoiantes, combatentes, operacionais, simpatizantes, etc. Só desde Janeiro último, em dois meses portanto, forma anunciadas 32 capturas de indivíduos suspeitos de pertencerem à ETA.
Eu entendo que estas notícias revelam duas realidades: por um lado temos a demonstração cabal da incapacidade das autoridades espanholas e francesas em conseguirem neutralizar o grupo, por outro é indesmentível que a capacidade deste em se renovar é enorme e revela uma melhor implantação no terreno e menos uma organização aceitável. É óbvio que a polícia há muito infiltrou sectores da organização, mas também que os bascos jamais aceitarão a subjugação a Madrid, e que muitos deles estão dispostos a dar a vida pela causa.
Alguns analistas portugueses e europeus, dão como certa a máxima segunda a qual um grupo terrorista é igual a qualquer outro da mesma índole, logo não existe terrorismos mas terrorismo. Eu penso que este pressuposto está errado, e mais errada está a política de Madrid que nos últimos anos tem procurado, com muito sucesso diga-se, quer junto das instituições europeias, quer junto dos países da NATO, obter apoios no combate à ETA. Só que a ETA, a Al-Qaeda, ou a Frente Polisário não são uma e a mesma realidade; longe disso.
A ETA defende uma realidade histórica. O País Basco possui um contexto sociocultural absolutamente próprio, que só a força das armas tem subjugado. Até há poucos anos a língua Basca, o Euskera, era proibida nas escolas daquela província espanhola. A autonomia basca encontra-se hoje muito longe da existente na Catalunha, e é similar à Galega. Ora os contextos nacionais destes dois territórios são muito mais próximos de Madrid do que o Basco. Claro que a questão se pode colocar de forma a perceber se esta evidência justifica a acção violenta. Normalmente é aqui que as opiniões se dividem.
O modus operandi da ETA ao longo dos tempos foi quase sempre pautado pelo aviso prévio e atempado de que um engenho ia explodir em tal sítio, o que não é bem o caso de outros grupos considerados congéneres. É verdade que no caso dos assassínios de elementos militares isso não se verificou. Todavia isto apenas demonstra que a ETA age de acordo com os códigos militares, ou seja, para os bascos Euskadi encontra-se em guerra entre exércitos que pertencem a dois estados, quem pertence a esses exércitos está portanto em guerra e logo assume as consequências até Eusakdi, (país basco), se encontrar livre da presença estrangeira. Este modo de agir afasta, aliado às razões históricas, sociais e culturais a que aludi no parágrafo anterior, a ideia de que todos aqueles que pegam em armas para defenderem um ideal, são iminentemente iguais.
Por outro lado, o que aconteceria se a ETA depusesse as armas, e a resistência fosse pacífica? (Coisa que aliás fez por três vezes e unilateralmente). Será que Madrid aceitaria a secessão? Claro que não. A Espanha é uma realidade historicamente dividida, não existe uma Espanha, mas antes Espanhas. E este facto funciona simultaneamente como evidência e argumento para a acção da ETA.
Lembro-me que em 1990, quando me dirigia para Montpellier, para passar umas "férias" a vindimar, na estação de caminhos-de-ferro de San Sebastian o nome da cidade estava riscado com tinta spray verde e vermelha, (a parede já era branca), e por baixo em letras da mesma cor via-se Donostia. Na parede que dividia a estação da rua adjacente lia-se em castelhano: “Porque fomos somos, porque somos seremos!”. Temo que uma determinação desta natureza assumida por uma parte muito significativa de um povo torná-lo-á invencível. Se calhar Victor Hugo tinha razão quando em pleno século XIX afirmava no parlamento francês – “Um basco não é francês nem espanhol... é basco!”
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