
Lembro-me bem dos anos em que nos dividíamos em grupos de opinião, e a cada um deles correspondia uma corrente político-filosófica. Foram os anos do início da minha juventude. Eu e os meus amigos, debatíamos os temas do momento e fazíamo-lo à luz das nossas convicções. No nosso caso o palco foi muitas vezes a cobertura do velhinho depósito de água do Algueirão. Havia os mais conservadores, os mais revolucionários, os mais moderados. Lembro-me até que na época, (finais dos anos oitenta), surgiu uma espécie de última corrente monárquica com algum peso social, muito em redor das obras e da acção do Miguel Esteves Cardoso. Tentávamos encontrar as repostas mais adequadas para os problemas e desafios de uma geração que alguém se atrevera a considerar rasca.
Depois surgiu um fenómeno estranho. Por um lado a discussão deu muitas vezes lugar ao unanimismo, algo que considero profundamente anti-humano, por outro os meus contemporâneos passaram a refugiar-se demasiadas vezes em questões secundárias, o que lhes tira o tempo e sobretudo o hábito da discussão aberta e pura. Há já alguns meses lembro-me de ter lido uma entrevista no Jornal do Fundão do ensaísta Miguel Real onde este defende que se colocássemos um computador no lugar de um ministro isso bastaria para fazer o trabalho político. Apesar da verborreia diária de alguns, temos cada vez mais dificuldade em encontrar diferenças nas pessoas que escolhemos para dirigir o país, por isso creio que a analogia do Miguel Real, meu querido mestre de filosofia, é particularmente feliz.
Todavia nos últimos dois anos, pelo menos em Portugal mas não estou absolutamente certo que seja um fenómeno estritamente nacional, temos vindo a presenciar um novo modelo. Um modelo que não consigo adjectivar de outra forma que não seja – Falta de vergonha. É incrível o arrojo de alguns indivíduos na comunicação social. Na última semana assistimos a mais dois casos “clássicos” do semvergonhismo nacional. Pedro Mexia, conseguiu realizar um trabalho tão extraordinário na EDP, (empresa pública que trabalha em sistema de monopólio pois nenhuma outra concorre consigo), que justificou um já célebre ponto 6 na ordem de trabalhos da Assembleia-geral onde foi atribuído a este extraordinário gestor prémios e salários no valor de 3,1 milhões de euros. Alguns dias mais tarde foi a vez do presidente da GALP, proferir aos microfones da rádio TSF quando questionado sobre as reivindicações dos trabalhadores da empresa em greve, que não era possível distribuir uma pequena percentagem dos lucros desta pelos seus trabalhadores pois apenas se atingira no 1º trimestre do corrente ano, 300 milhões de euros de lucro.
Em linguagem corrente isto significa na prática o seguinte: Um professor com 15 anos de carreira aufere de um rendimento mensal que não chegará aos 1500€. Isto quer dizer que o rendimento anual deste profissional será de aproximadamente 21000€, correspondentes a 14 salários. Ora o sr. Mexia apenas auferiu no ano passado o que um professor demoraria a ganhar em 147 anos, se tivesse a hipótese de trabalhar esse tempo. Mas que dizer dos enfermeiros que há bem pouco tempo reivindicavam um aumento de 150€ no salário de início de carreira, equiparando este ao que recebem outros profissionais na mesma condição? Um enfermeiro ganhará actualmente cerca de 1050€ mensais quando, após licenciatura e estágio, inicia a sua vida profissional. Claro que o Sr. Mexia é um gestor feito, não está em início de carreira, por isso segundo os accionistas da EDP, justifica-se que ganhe 210 vezes mais.
Mas eu insisto num artigo que escrevi neste blog, e que intitulei “O cerne da questão!” Os culpados deste estado de coisas somos nós. Absortos e sem reacção, lambendo feridas que nunca haverão de sarar, e lamentando-nos cobardemente por não gostarmos de política. Isto não é política é sem vergonha. E enquanto escolhermos as mesmas soluções para os mesmos problemas assim continuará a ser. Afinal Portugal é um paraíso - é fartar vilanagem!
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