
“O senhor é para Portugal a melhor das propagandas, é uma honra para a sua pátria. Todos aqueles que o conheceram louvam a sua coragem, o seu grande coração, o seu espírito cavalheiresco, e acrescentam: se os portugueses se parecem com o Cônsul Geral Mendes, são um povo de heróis e cavalheiros”
Giséle Allotoni, uma refugiada que recebeu visto em Bordéus, e que enviou
esta carta a Aristides já instalada em Portugal”
Aristides morreu no dia 3 de Abril de 1954. Estava internado no Hospital da Ordem Terceira, e encontrava-se numa situação económica de autêntica penúria, fruto de ter sido afastado da carreira diplomática, pois desobedecera e Oliveira Salazar. A razão da desobediência foi a concessão de um número considerável de vistos enquanto Cônsul Geral de Portugal em Bordéus, a cidadãos de várias nacionalidades, que apareciam no nº14 do Quai Louis XVIII, em busca da salvação para as suas vidas.
Porque é importante que os nossos filhos saibam quem foi este diplomata? Porque é absolutamente necessário que as suas vidas sejam orientadas nos valores que constituem os pilares das sociedades do mundo ocidental a que pertencemos. Esses valores radicam no Humanismo, isto é, no respeito quer pelas diferentes confissões religiosas quer pelas convicções políticas, mas acima de tudo o profundo respeito pelos direitos humanos. Trata-se de pilares que são inegociáveis e insubstituíveis. Não se negoceiam porque sem eles as nossas vidas não seriam mais as mesmas. É pois nossa responsabilidade ensinar às gerações mais novas estes valores, ou seja, dotá-las de conhecimentos de condutas que sejam consideradas exemplares.
Ora Aristides de Sousa Mendes é sem dúvida um desses exemplos mais notáveis. Homem conservador, orientou a sua vida pelos ideais em que acreditava sinceramente, e não hesitou em destruir a sua carreira quando a trave-mestra dos seus ideais foi atacada. Monárquico e profundamente católico, entendeu que o amor ao próximo era a melhor maneira de servir o Mundo.
Causou-lhe forte impressão o facto de os governos ocidentais, particularmente o francês, se terem colocado de cócoras perante a ameaça Nazi. Numa montra de um restaurante em Bordéus leu numa tarde de 1940, mesmo antes do ataque alemão à França, uma frase que o deixou varado – “Interdit aux chiens et aux juifs”. A sua índole estava mais próxima de Churchill que por esses dias anunciava ao mundo - “we shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender”.Enquanto as escadas do consulado de Portugal se enchiam de refugiados, Aristides recebia na sua residência aqueles que mais necessitados estavam de abrigo e alimentação. Tinham atravessado a Europa fugindo dos exércitos nazis e chegavam a Bordéus famintos e alguns doentes. As suas vidas estavam verdadeiramente por um fio. Uma circular do governo de Lisboa, (a célebre circular nº14), proibia os cônsules de emitir vistos. À revelia das ordens de Salazar, e consciente dos riscos que corria, Aristides nunca acatou as ordens recebidas, e a razão para tal “loucura” era segundo palavras suas, afinal muito simples – “Não participo em chacinas, por isso desobedeço a Salazar!”.Resolveu não obedecer, apesar de esse comportamento ser contra a sua conduta de homem recto, contra o código deontológico da sua profissão, contra aquilo quer era um imperativo de consciência. O que o levou a isso? um imperativo moral, um valor superior às ordens dos seus superiores – a vida humana. Salvou aproximadamente 30 mil pessoas. Claro que Salazar entendeu a conduta de Aristides como um desafio, e ele era demasiado tacanho para aceitar uma discussão quanto mais um desafio. Sem jamais confrontar o Cônsul Geral com as suas razões, demitiu-o. Aristides em nome dos ideais em que acreditava, destruiu a sua vida, perdeu a sua carreira e acabou os seus dias a viver da beneficência dos outros, mas manteve a verticalidade dos seus princípios.
Às 16 horas daquele 3 de Abril de há 56 anos, vítima de uma trombose cerebral, Aristides morria, sem todavia ter sequer roupa para ser enterrado. As roupas que lhe vestiram foram cedidas pelo Hospital, e eram umas simples vestes de franciscanos.
Ao saber da notícia, Salazar telegrafou ao irmão gémeo de Aristides, César. O telegrama dizia – “Sentidos pêsames”.
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